A Moda Maker

01 Nov

O termo e o mercado que vem no bojo da Cultura Maker é um caso de branding para se estudar. trata-se de um conceito inventado e difundido por uma elite, que se organiza e promove ações em torno de um conjunto de idéias do que seja legal, cool, e novidadoso.

A idéia de fetichizar os objetos, criando uma áura de desejo é uma invenção muito antiga e associada aos mecanismos de exercício e reprodução do poder entre os homens. A moda é o mecanismo sutil pelo qual o gosto se impõe, e estar atualizado com as suas tendências demonstra proximidade com o centro do poder, na percepção de quem a consome, e no benefício de quem tem o privilégio de inventá-la.

Diz-se que na corte de Luis XIV, uma dos privilégios mais disputados pela corte era o de carregar o urinol do rei durante a noite. O que às nossas percepções alvejadas pelo cloro da finesse burguesa reeditada na contemporaneidade pode soar como perversidade ou escatologia, concedia ao laureado um precioso momento de intimidade com o absoluto.

Algum tipo de informação privilegiada, que fosse a uma expressão de cumplicidade ao compartilhar um lamento ou uma maldade sobre algum desafeto, uma informação antecipada sobre qualquer veleidade poderia levar a uma preciosa dica. A moda é para os amigos do rei.

Quando classifico por moda o advento da cultura maker, faço uma analogia a esses processos de reprodução e reforço do poder. O caráter expresso na dicotomia centro-periferia que se reproduz na vida das cidade, na vivência social e nas relações interpessoais.

Em 2005, um editor propõe e lança uma revista como preparativo para um grande evento, uma festa-feira que cultua a autonomia, de fazer você mesmo seus objetos. Até então, somente um seleto grupo que orbitava em torno de prestigiosas instituições do Vale do Silício na Califórnia tinham notícia daquele evento que antecipava a nova moda.

A proposição era de que uma nova onda de interesse em objetos, tecnologias e formas de fazer que se utilizassem de ferramentas caras de altíssimo refinamento tecnológico para ressignificar a vida. A novidade burguesa do da bricolagem, a moda do homem da cidade vitoriana de ter pelo mero prazer de fazer com as próprias mãos os objetos se reinventa na Califórnia, e ganha o mundo, não mais pelos catálogos dos magazines, mas pelos pctes de dados comutados pela internet.

O grande evento que se prenunciava era a Maker Fair. Quem participou da primeira edição, teve a chance de testemunhar em primeira mão as maravilhas dessa nova tendência. Imprimir seus próprios objetos em máquinas com nomes pomposos e utilidade prática contestável.

Os propositores classificam esse novo trend como um movimento. Assim, com as mãos ocupadas resta pouco ou nenhum espaço para se pensar nas questões políticas, eleições presidenciais, no controle social que as grandes e poderosas companhias fomentam na sociedade de controle, para refletir em consonância com o pensamento foucoultiano. falar em política é depeche-modê.

A Califórnia é a nova Paris.

Cultura é um termo de muitos significados. Tantos, que é impossível chegar a uma definição coerente e consensual. A revolução cultural chinesa e a cultura dos ministérios, apesar de utilizarem do mesmo expediente lexical, tratam de matérias completamente distintas entre si, Outros termos que refletem essa polissemia são democracia, fé, amor e movimento, para exprimir uma tendência de comportamento. Liberdade, é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda, já nos dizia uma poeta.

A moda, para além da angústia dos que dela não participam e da satisfação dos que dela podem consumir é o que move mercados. Muitos autores já refletiram sobre estes processos. Karl Marx, no século XIX via com preocupação a situação das crianças da classe trabalhadora que se submetiam a jornada de até dezesseis horas diárias nas fábricas insalubres dos subúrbios londrinos, buscou explicar os métodos do capital se reproduzir. Neste processo de reflexão preconizou que na urgência de se reproduzir, o processo do capital tende a humanizar as coisas e coisificar as pessoas no que ele chamava alegoricamente de fetichismo da mercadoria. Não é necessário seguir nenhuma cartilha comunista para concordar com essa análise, basta um pouco de refinamento intelectual, mínimo que seja e a disposição de olhar ao redor. O ápice da coisificação do modelo de negócio do facebook, por exemplo, que transforma nossos desejos e opiniões em mercadorias. Alienando nossa intimidade, que já foi sagrada para todos, mas cada dia mais se converte em privilégio dos que podem se dar ao luxo da privacidade.

Até quem não segue a moda sabe identificar pela aparência quem com ela se alinha. O que nosso sistema de divisão de poder e influência faz de mágico, é democratizar seus meios de exclusão. A prole que defende os privilégios e anseia a ascensão perpetua o discurso de quem domina os meios econômicos e o prestígio social.

No ano passado, a prefeitura de São Paulo lançou o programa de fablabs livres. Salas equipadas com os kits completos de ferramentas e recheados de uma programação que incita os frequentadores a se interessarem por estabelecer uma dinâmica de brincadeira com aqueles objetos e tecnologias fabulosas. Ao que tudo indica, estes espaços serviriam como proposta de apresentar uma forma de criar pequenas sucursais do vale do silício em cada um destes pontos pela cidade.

Cada vez com mais frequência surgem peças publicitárias, matérias jornalísticas, entrevistas, celebridades da cultura maker propagandeando seus vídeos com instruções de como fazer qualquer tipo de mini objeto por propósitos mais variados, geralmente levando à resolução de nenhum problema concreto. A moda se reproduz.

Penso que a experiência de entrar em um destes laboratórios pode ser intimidadora para alguém que não conheça códigos da última moda. E até que ponto, um órgão público aderir a um modismo destes reforça a idéia de adesão e alinhamento com um centro de poder, expresso na intenção de oferecer uma possibilidade de acesso a esta moda, que qando chegar nas prateleiras já estará ultrapassada.

Algumas pessoas manejam bem estes processos psíquicos de desejos em pertencer ao circulo de privilégio dos que sabem antes o que está na moda.

Para propagandear essa moda maker, feiras são organizadas, grupos de estudo se formam em núcleos especializados nas universidades, escolas de bairro, todas equipadas com ferramentas que constituem o kit básico de qualquer makerspace que se pretenda alinhado com a tendência.

Essa nova onda de parecer autônomo, interessar as crianças em carreiras técnicas e oferecer acesso a esses laboratórios dos sonhos para a população, ao que me parece vai soar tão fora-de-moda quanto calças de cós alto e jaquetas com ombreiras, tão logo essa moda seja substituída por outra, tão logo algo novo desponte no horizonte californiano como movimento

Todos sabemos que custa caro andar na moda, não porque seja um recurso bem gasto na concepção e na feitura destes itens, mas porque simplesmente a decisão de adquirir um item da moda não seja ligada a nenhuma característica funcional das coisas, mas pela simples fantasmagoria do fetiche de querer parecer mais próximo do poder, mais alto na escala social. É o mal do novo rico, que dispõe dos recursos, mas não compartilha dos códigos. E ao tentar comprar o acesso, se destrói no processo.

O que se propaga dessa moda da cultura maker é que o acesso a uma impressora 3D de cinco mil reais na sala de casa torna qualquer pessoa capaz de resolver problemas complexos de saneamento básico, emprego, mobilidade urbana e quem sabe, se anima em prototipar um foguete e se mandar pra lua. Sinceramente, me reservo ao direito de ser cético quanto a eficácia deste argumento.

Andar na moda custa caro. Impressora 3D da marca novaiorquina, cortadora a laser feita na China, fresadoras japonesas, suprimentos importados são melhores, dizem.

Acompanhei a saga de alguns amigos no fim da década passada que se aventuraram no negócio de desenvolver um produto para equipar esses laboratórios. Um projeto opensource de uma máquina capaz de criar objetos tridimensionais a partir de um filamento de plástico. Eles vendiam estas máquinas em formas de kits para montagem, e aprimoraram o desenho das impressoras reprap originais.

Uma análise otimista diria que enquanto durasse a moda das impressoras 3D essa empresa receberia pedidos e mais pedidos destes kits para montagem das impressoras. Seria um estrondoso sucesso porque a demanda pelos kits é a própria essência dessa nova cultura-movimento. Acontece que o mercado não estava preparado para um produto que colocasse à prova o conceito dos fablabs, de desenvolver um mercado local e estimular os bricoleurs a adquirirem seus kits e perder horas, muitas horas de trabalho na montagem configuração e calibragem.

Talvez, o declínio do mercado para este produto fosse o indicativo de que, o fazer de fato, a essência do que fosse uma nova cultura maker, montar o kit, submeter-se às agruras de um procedimento de montagem de centenas de componentes, compreender o funcionamento da parte lógica e depois de todo o trabalho deparar-se com a possibilidade de que esta máquina pudesse não funcionar como era imaginado - e essa é a descrição de um processo de desenvolvimento tecnológico real - parecia um preço em termos de esforço humano maior do que a média das pessoas estão dispostas a dispor para simplesmente andar na moda.

Esse mercado das repraps logo abriu caminho para toda uma nova geração de aparelhos domésticos fabricados por companhias estabelecidas. Fresadoras, cortadoras a laser, equipamentos com valores ao consumidor entre dois e daz mil reais. Enfim um novo mercado havia sido criado e o ciclo da moda se completaria, com seus propositores mais prestigiosos, e todo um exército de empresas e companhias em volta deste processo, com os melhores produtos chegando aos preços mais interessantes no lugar certo, venderiam como pão quente milhares de equipamentos para equipar fablabs de escolas, prefeituras. Domesticando por fim o garagismo como proposta de estilo de vida e formatando isso como produto educacional.

Se eu questiono a moda do maker, é por ter dúvidas de que realmente coisas incríveis serão inventadas nesses novos laboratórios. Tão logo este ciclo se feche, as prefeituras, centros de arte e escolas de todo o mundo tiverem pago a última duplicata aos seus fornecedores, uma nova moda-cultura despontará e tornará tudo que foi feito até então obsoleto.

Isso de maker não é cultura, nem é movimento. É moda e é mercado. Chamemos pelo nome correto.

Epílogo
O pretexto de andar na moda é tão premente quanto a sua recusa. O célebre compositor pestana, vivia o dilema de tentar a todo custo compor a mais solene e erudita sinfonia, e ao final, acabava compondo mais uma polquinha de sucesso. É ao recusar e tentar se esquivar da moda que acabamos por criá-la.

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